segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

''Tive cuidado. Eu olhei duas vezes antes de atravessar, mantive o dedo distante das tomadas, me agasalhei no frio e usei protetor solar no verão. Eu cuidei aqui e ali de umas coisinhas, de uma listinha básica da vida. Eu juro que olhei duas vezes antes de atravessar… Mesmo assim, cercada de cuidados internos, um algo qualquer passou por cima. Não sei, não tive tempo de ver. Na maioria das vezes eu nunca vejo. O asfalto não é alívio para o corpo. Erguer-se novamente nas próprias pernas fica sempre alguns por cento mais demorado. E doido. Doído, com acento e sem. Passei lá minhas pomadas, costurei as roupas, enxuguei os olhos, mas como, meu Deus, como passa o trauma? Todas as ruas parecem um destino ao próximo acidente. Ou seja, brevemente falando em outros parágrafos para não confundir: todo novo passo é um atropelo. Ah, como eu queria andar sob pernas de pau que se quebrariam antes de mim. No choque com o chão eu já nem seria mais eu e tudo se refaz mais fácil como novas pernas de pau. Melhor adormecer na queda, mas eu sou como o pão que cai com a manteiga virada para baixo: caio com a consciência plena da dor. Não adormeço e nem me mexo. Condenada ao atropelo, de fato. E o que posso dizer? O quão frustrante é viver na regra de cuidados que não me cuidam? O quão estranho era se proteger e tanto se quebrar? Eu devo estar esquecendo algum detalhe… Ou, quem sabe, algum detalhe que me esqueceu.''